sábado, 12 de dezembro de 2009

Até mais!

É duro dizer até mais,
Quando a gente quer que o "mais" seja "menos" tempo até o próximo encontro.
É duro dizer até mais,
Quando a gente tem medo que o "mais" seja "nunca mais".
É duro dizer até mais,
Quando a gente vai; mas vai faltando "até mais" que um pedaço.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Uns Dois2

Cansei de ser 1 só!
Quero ser Dois2.
E sendo Dois2,
Quero ser 1.
Não um 1 só,
Mas um 1 junto.
Um 1 par!

domingo, 29 de novembro de 2009

Domingo

O homem que mais quis foi o único cuja ausência de nada me serviu. Dos que passam algo sempre fica, nem que seja a insignificância da sua passagem, e a compreensão do vazio que sobra. De cada um fica a possibilidade de combinar palavras, e ele, foi o único homem de quem não consegui escrever, a não ser sobre a falta do que escrever.
Talvez ele seja um tanto assim. Inútil escrever do não escrever. Inútil amar o desamor. Inútil querer o que não quer ser quisto. Mas a poesia nos permite.

Como paralelas que se cruzam
como meio e dois somaram treze
como chamar solidão de liberdade
fomos assim, um absurdo.

Resta ainda uma memória viva
(de um passado morto),
um buraco negro em meu peito
onde tudo que adentra se desfaz
e a pequena princesa em seu grande planeta
não consegue cultivar sequer uma rosa.

Aos domingos sou um tanto mais triste.




A desenhei em minhas pálpebras
e dormir agora dói.
Minhas lágrimas
não a apaga,
não a afoga:
irresistível sua imagem a dançar sob a chuva.
Com


bom

Con
fe
sso:
cético

A.A. - amantes anônimos.

Carrego um sentir dependente
de doses diárias de razão
a fim de a n e s t e s i a r minhas emoções.
Quando a novidade se fez necessária
e o prazer do auto-controle se fez pequeno
encontrei você:
droga pesada, química viciante.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Hoje acordei breguinha

Hoje acordei mais tarde, a cama tava boa demais. Coloquei na cara o meu melhor sorriso, e um brilho em cada um dos olhos. Vesti um manto de leveza, e calcei passos tranquilos. Meu corpo saiu a exibir pelas ruas a alegria que carregava em suas costas. Hoje acordei para você. Vi você segurando a lua lá no alto, e depois correndo para acordar o sol preguiçoso, é, o calor da uma moleza, bem sabe os nossos corpos. E depois ensinou aos pássaros a mais bela canção, e pediu aos seus dedos que ensinassem ao vento como passar de leve, me provocando arrepios que logo lhe lembrariam. Deu sua saliva para matar minha sede, e sua carne para a minha fome. Depois seu carinho como sobremesa, e uma breve saudade para alimentar minha tarde. Uma amiga veio me perguntar onde comprei minhas roupas. Respondi que vinha cultivando algodão, e suportando pragas em minha plantação, e agora tecia a mão o manto que vestia, e tinha inspiração para esculpir o sorriso que exibia. Hoje acordei para mostrar o sorriso que lhe fiz.

tele, muito tele.

Dedicado à Maurício
 
De repente, sob o sol, senti um leve frio: ele havia trocado de telefone. Mudara o número que eu havia decorado, e que durante tempos digitei, meu disk-amor e, que mesmo depois do fim, eu lembrava ainda. Mas agora, o número me fugira da memória, e eu não entendia o porquê: ele não mais existia. Fora apagado então, meu último resquício de nós. Entre tantas coisas que foram deletadas, nem esse breve apego me restou. Ficou apenas a lembrança de certas sensações, histórias e estórias, e a dor da perda: 4363-3397.

domingo, 22 de novembro de 2009

Mais uma do cara estranho

Vale a pena ver:
http://www.youtube.com/watch?v=uy0HNWto0UY

comparado ao cara estranho do post 'O último pedaço'.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Feliz é a tristeza.

Dedicado a alguém que está por vir.

Em minha infelicidade discreta, minha melancolia é quem sorri, a fim de proteger minhas pequenas alegrias chorosas, selecionadas com minúcia, e enganar os olhos cardíacos e gordos que não suportariam a beleza dessa minha alegria contristada. De certo sentiriam palpitações ao se aproximarem desse contentamento receoso que, por não subestimar a efemeridade dos risos, e as enfermidades recorrentes, são alegrias de vida longa, cheias de curativos e cicatrizes, mas das quais jamais desisti e as enterrei. Não quero colecionar alegrias, nem renová-las. Quero cultivar cada riso que tão intensamente escolhi, seria deveras triste me perder entre os risos fáceis dos homens felizes, que encontram beleza nas coisas simples, e motivos para sorrir em cada mínima coisa. Tenho orgulho da minha infelicidade crônica, e até gosto de enxergar um mundo tão feio, com pessoas tão feias e de energia tão pesada. E dessa maneira me ativam os brios encontrar alegrias em um mundo triste, e beleza em meio a tantas visões desagradáveis e uma pessoa como você, entre tantas desnecessárias.

domingo, 18 de outubro de 2009

O último pedaço

Dedicado à L.J.

E naquele dia acontecia algo muito inusitado, o rapaz estranho saía de casa. Estranho porque era quase 6, e a noite já empurrava o dia para trás dos prédios, estranho porque era uma sexta-feira agitada e cansativa de se ver, e estranho porque o rapaz inusitado saía de casa. Eu, parada no ponto de ônibus, encontrei uma distração para os vários minutos que eu passaria ali sentada, vê-lo seguir não era menos interessante que a matéria sobre o prêmio Nobel da paz que eu tentava ler, e vez em quando era interrompida com alguma bizarrice típica paulistana. Pra minha sorte era uma avenida longa, e levemente íngreme, o que me permitia observá-lo ainda por um bom tempo. Ele seguia todo de preto e, alinhado com o muro branco, quase não o via, parecia peças de roupas, sapatos e cabelos se movendo entre os grafites no muro. Os sapatos davam passos curtos, como se não quisessem ir tão longe; enquanto as calças os acompanhavam, o paletó dançava com os braços, uma dança inquieta, onde as mangas entravam nos bolsos da calça,  depois iam em direção ao rosto, à cabeça, e se cruzavam em frente ao peito e, de repente, aconteceu o que eu menos esperava: ele dobrou a esquina. Meus olhos se sentiram profundamente rejeitados, esses que se propunham a acompanhá-lo foram abandonados na primeira esquina: sem despedida, explicações ou um afago de até breve. Orgulhosos que são, rapidamente se voltaram para a revista na tentativa de desfazer o rolo, o rolo feito da revista e o rolo que eles se meteram ao se proporem, inusitadamente, a seguir o rapaz estranho. Todo meu corpo transbordava tranquilidade, tenho um corpo bastante orgulhoso, o que gera grandes conflitos entre ele e minha mente, ocupando o mesmo espaço são como Yin e Yang, Greta Garbo e James Dean, uma fusão do sim e do não, de rebeldia e melancolia que não há como resultar em algo diferente de um grande vulcão ativo, com constantes erupções. E lá veio toda aquela lava vermelha saindo da minha alma quando o vi voltar, trazia na mão um chocolate e algumas moedas. Agora ele já poderia me ver, e apenas essa remota possibilidade já despertava a minha timidez. Passei poucos segundos tentando atrair a curiosidade dos meus olhos para qualquer outro ponto que não ele, mas pelo canto dos olhos o procurava, e estranhamente não o encontrava, assustada com a possibilidade do seu sumiço, voltei meus olhos para onde havia o abandonado e vi que ele atravessara a rua e agora vinha em minha direção. Não sei quantas idéias cabem em poucos segundos, mas garanto que são muitas. Tampouco sei a probabilidade das pessoas pegarem ônibus, talvez seja bastante comum, mas na minha mente há tanta poesia, que não aceito ser acaso estarmos naquele mesmo banco, num mesmo ponto de ônibus, em um mundo tão grande. Experimentei, nesse momento, uma apnéia acordada. E só senti novamente o ar quando estávamos no ônibus, e não sei se por compensação, mas passei a engolir todo o ar que me rodeava ao notar ele num banco de frente para mim. O rapaz estranho parecia ter entrado no ônibus, como quem procura abrigo. O mundo parece estar, a todo momento, desmoronando sobre sua cabeça, porque vejo nele um desabrigado, sempre em busca de proteção. Temia chegar ao ponto no qual teria que descer. Intercalava seus olhares preocupados entre o seu relógio, acreditando na possibilidade de desacelerar o tempo, e as ruas que deixava para trás, pois, em sua indecisão crônica, nunca soube exatamente em que ônibus embarcar, a hora de parar, de dar o sinal, de partir.
A disputa acirrada entre a rua e o relógio me provocava de alguma maneira. Comprei a briga. Não por vaidade, mas porque percebia naquela indecisão uma falta de rumo que me lembrava, e em alguns minutos mudara a minha direção: me veio um súbito desejo de me perder.
Sempre acreditei que temos ainda muitos órgãos dos sentidos a serem descobertos, um deles deve se localizar um pouco pra lá do cantinho dos olhos, capaz de perceber os olhares mais distantes. Sim, o olhar só pode ser material, deve haver alguma química lançada decifrada pelo cantinho dos olhos. Olhava para ele e via pouco mais que seu cabelo: sua nuca, e a bochecha que começava a se curvar, já se percebendo uma nuance avermelhada. Lançava os olhares mais intensos, que suplicavam por um oi. Nem por educação, nem por desejo recíproco, foi a curiosidade que lhe ganhou me direcionando o olhar – durante vários segundos suas pálpebras se exibiram e se guardaram sem leveza, como se nem mesmo seus olhos soubessem o que fazer quando se trata de ações voluntárias. Apresentei-me brevemente, tentei conversar, mas seus olhos fugiram do assunto. Só me restou permanecer no monólogo que me tomava o tempo até então: ouvia seu corpo dizendo-me meias-palavras, algumas mentiras, contava histórias, e algumas verdade ocultas encantadoras. Ele não me parecia o tipo de rapaz que sonha acordado, aliás, pagaria suas viagens durante um ano se isso me permitisse conhecer meia dúzia dos seus pensamentos mais íntimos. Mas essa incógnita não deve sonhar nem dormindo, ou sonha, como uma forma de extravasar e, irritado, procura esquecê-los todos ao despertar, pois odeia se ver agindo de maneiras que abomina. Odeia ser, mesmo que virtualmente, um alguém que não é, um alguém que não controla, e lhe daria ânsia relembrar, enquanto escova os dentes, como durante toda a noite pode ser tão inconsequente.
Ele levantou, e sem me dar adeus deu o sinal. Perguntava-me ansiosa se aquele sinal era para mim, ou apenas para o motorista. Olhei para trás e peguei seus olhos em flagrante olhando em minha direção. Disfarçou, como se aquele fosse parte do percurso que seus olhos faziam, fotografando uma panorâmica do abrigo que agora abandonaria, provou mais um pedaço do seu chocolate e partiu. Ignorei a possibilidade daquele sinal não ser para mim e resolvi acompanhá-lo. Moço tão frágil não pode andar assim sozinho. Atravessou a rua apressado, como se eu representasse algum perigo, mas que tolice, era apenas uma garota pequena, dos pulsos finos, que nem que desejasse algum mal fazer, conseguiria atingir o rapaz estranho sob a armadura.
Do outro lado rua havia um parque, a grama não era tão verde, e um mato intruso deformava o tapete. Não havia folhas secas sob as árvores, apenas dois copos plásticos e papéis usados. Não se ouviam os pássaros, apenas o som dos motores, das buzinas, vozes misturadas, e algumas pombas bicando restos. Não havia estrelas no céu, a praça era iluminada por lâmpadas que repentinamente se apagavam. Não havia um lago, nem chafarizes, nem uma estátua. Queria apressar o passo para o alcançar e dizer qualquer coisa que o convencesse de alguma coisa, mas afásica o vi partir: o rapaz estranho procurava algum abrigo que o protegesse daquela paisagem casual, que outrora pareceria feia, mas naquela noite, sob aquele luar, e após uma intensa conversa, havia um inusitado desejo de degustar o que há de melhor: o último pedaço do chocolate. Mas ele conhece bem a efemeridade das coisas, e não é de seu agrado, ao perceberem isso todas as flores daquela praça quedaram tristes e murcharam. Ele dobrou cuidadosamente o papel e guardou esse prazer para mais tarde.

Sobre as coisas passageiras

Não é por ser efêmera que não pode ser adorável, disse a flor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Na radio, na cabeça.

Se eu pudesse ser quem, o tempo todo, você quer
se eu pudesse ser quem você quer o tempo todo
o tempo todo, se eu pudesse ser, quem você quer?
o tempo todo, quem você quer ser?
se você pudesse ser quem quer, o tempo todo...
se eu pudesse ser quem você quer,
se eu pudesse o tempo ser...
se.

Open you eyes

All this feels strange and untrue and I won't waste a minute without you. My bones ache, my skin feels cold and I'm getting so tired . The anger swells in my guts and I won't feel these slices and cuts, I want so much to open your eyes, cause I need you to look into mine. Tell me that you'll open your eyes.
Get up, get out, get away from these liars, 'cause they don't get your soul or your fire, take my hand, knot your fingers through mine, and we'll walk from this dark room for the last time.
Every minute from this minute now, we can do what we like anywhere. I want so much to open your eyes, 'cause I need you to look into mine.
All this feels strange and untrue and I won't waste a minute without you.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sobre mim

Minha vida é um livro aberto escrito em esperanto.

domingo, 4 de outubro de 2009

Sobre relacionamentos

Diz a física: Quanto mais forçar, maior o trabalho.

Ainda hoje

Dedicado à E.C.

Ahh... Ele era tão barbudo e alto. Exatamente como idealizei: barbudo e alto.
As coisas foram acontecendo de maneira tão inesperadas, tão casuais, tão ‘acaso’ais, tão convincente. Cheguei a achar que daria certo. Por acaso num show, por acaso na rua, por acaso sob meus lençóis, por acaso: o ocaso. 
À meia-luz me confessou segredinhos, e já no escuro eu via seu rosto e cada um dos seus movimentos desajeitados. Em seu peito Kingsize fingia dormir, fechava os olhos e assim passava horas tentando entrar no seu sonho. Sagazmente esfregava meu pescoço sobre sua camisa branca, expulsava meu cheiro dos meus poros, como uma tentativa de lhe fazer me lembrar mais tarde. 
Era engraçado ver seus dedinhos para fora do meu lençol, e ainda hoje me pergunto se partiu por não caber em minha cama. Bobo, se soubesse o conforto que há em meu peito. E eu jamais quis uma cama grande, sempre achei que o excesso de espaço é um convite indesejado. Gosto mesmo é do aperto. Já há distância demais entre as pessoas, dentro das pessoas, que só o que quero é espremer, exprimir meus devaneios, expelir meus desejos, e me espreguiçar as oito da manhã com certo prazer, tomar um café preto melhor que Kopi Luak, e um pão adormecido com manteiga, mas em minha boca tudo se mistura com o sabor do seu beijo e, de ímpeto, descubro uma receita mítica, talvez afrodisíaca. Então deita novamente sobre meu travesseiro, como quem pede mais cinco minutinhos, talvez um abraço, ou um café da manhã de verdade. Ainda hoje me pergunto se partiu por causa do pão adormecido. 
 Analiso por algum tempo ele deitado, e a maneira como seu cabelo acompanha as curvas que faz a fronha amarrotada, até que se levanta sem dar tempo de eu ter feito qualquer coisa além de o olhar, ajeita o cabelo afastando-o da nuca num movimento convidativo e se levanta. Ainda hoje me pergunto se partiu por achar que não o queria ali por mais cinco minutinhos.
Oferta-me a mão, olho para elas questionando se devo puxá-las sobre mim, ou usá-las de apoio para me erguer e, por mais que me fosse óbvio o que eu desejava, tive medo de o machucar com meu jeito atrapalhada, e apenas me levantei. Ele olhou no relógio, afastou minha franja que caia sobre meus olhos, acariciou meu rosto, e colou seu corpo no meu: meu quase-clímax, sentir em um novo dia aquele homem barbudo e alto colando no meu corpo, colando seu corpo, e alguns desejos dos quais ainda hoje tento me livrar. 
Deu-me um abraço apertado, aperto que mais tarde pararia em outros lugares e do qual jamais consegui me livrar. Por mais alguns minutos nos comunicamos assim, com toques e transferências e ele deixou minha casa. 
Andou pela rua como quem é observado, e de fato era, então aproveitou que eu guardava seu caminho para não se preocupar com os problemas mundanos, as placas e os carros que iam e vinham, pôs todos os seus esforços em balançar o cabelo, esboçar um sorriso, e dar sinal ao tróleibus de maneira exata. Cada gesto minuciosamente elaborado, como uma maneira de me fazer lembrá-lo mais tarde.
Talvez estivesse se vingando do cheio na camisa, bem vi que notara meu cheiro quando olhou para o lado e seu nariz se pôs sobre o ombro esquerdo. Não sei quanto da perfeição desse encontro foi poesia minha, mas ainda hoje me pergunto porque ele partiu. Talvez devesse telefonar. Mas ainda não passou das 10.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O que eu queria que fosse verdade...

"Vou contar o que ela vê nele: ela vê tudo o que não conseguiu ver no próprio pai, ela vê uma serenidade rara e isso é mais importante do que o Porsche que ele não tem, ela vê que ele se emociona com pequenos gestos e se revolta com injustiças, ela vê uma pinta no ombro esquerdo que estranhamente ninguém repara, ela vê que ele faz tudo para que ela fique contente, ela vê que os olhos dele franzem na hora de ler um livro e mesmo assim o teimoso não procura um oftalmologista, ela vê que ele erra, mas quando acerta, acerta em cheio, que ele parece um lorde numa mesa de restaurante mas é desajeitado pra se vestir, ela vê que ele não dá a mínima para comportamentos padrões, ela vê que ele é um sonhador incorrigível, ela o vê chorando, ela o vê nu, ela vê o que ele tem de invisível para todos os outros.

Agora vou contar o que ele vê nela: ele vê, sim, que o corpo dela não é nem de longe parecido com o da Daniella Cicarelli, mas vê que ela tem uma coxa roliça e uma boca que sorri mais para um lado do que para o outro, e vê que ela, do jeito que é, preenche todas as suas carências do passado, e vê que ela precisa dele e isso o faz sentir importante, e vê que ela até hoje não aprendeu a fazer um rabo-de-cavalo decente, mas faz um cafuné que deveria ser patenteado, e vê que ela boceja só de pensar na palavra bocejo e que faz parecer que é sempre primavera, de tanto que gosta de flores em casa, e ele vê que ela é tão insegura quanto ele e é humana como todos, vê que ela é livre e poderia estar com qualquer outra pessoa, mas é ao seu lado que está, e vê que ela se preocupa quando ele chega tarde e não se preocupa se ele não diz que a ama de 10 em 10 minutos, e por isso ele a ama mesmo que ninguém entenda."

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O conflito entre o sim, o não, e o sin.

Dedicado à M. Madalena

Ah moço, não faças isso, te digo de antemão
devias é ter medo de moça tão ousada
essa que bem sabe que a impedindo estás a impelindo
contra si, contra a pele,
pele que de nada entende
além do calor, do frio, e de alguns arrepios.

E se surpreenderá ao descobrir
que o sim e o não se tangenciam
e então já terás gasto demasiada saliva com tantos nãos,
mas tenhas calma que a recuperará no inevitável
quando o talvez pilantra roubar
todos os sins do teu corpo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Acrosticando

Cousa é essa que atormenta?
Retorce involuntariamente os músculos voluntários
Estribilha a perna ansiosa, enquanto
Todo seu rosto se contrai engolindo sal pelos olhos.
Inquieto o coração se desfaz
Nessa saudade injusta de quem não aceita
O destino dos seus encontros.


"So
lamente
uma vez"
(Leminski)

ImaginAção

Acordo com vontade de ver o sol se pôr,
e ele se põe todos os dias.
Não é por serem óbvias, ou recorrentes,
que tal coisa perde o encanto.

Eu que nunca vi o crepúsculo polar,
me satisfaz o imaginar.

Digo que não é estranho sentir saudade
dos cinco minutos passados, após cinco minutos.

Nem tão pouco a saudade do que nunca vivi,
aquilo que não foi
                             vive em minha imaginação.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

a mór

Ah, como gosto de um alguém carente, desesperado, dramático, intenso. Alguém que passe o dia na espera, fantasiando por onde estou. E quando ouvir o barulho do cadeado deitará depressa, se aconchegará entre as almofadas, montando o cenário perfeito de quem não me esperava, e fingirá que pouco se importou, mas quando eu chamar por seu nome, virá feliz me receber, me enchendo de beijinhos enquanto sinto o cheiro de seus cabelos que me pede para lavá-los. Ao me ver sorrir para outro, transbordará de ciúmes e pouco se importará com os meus próximos vinte sorrisos, por mais que adore cada um deles. Sabe que logo depois irei lhe agradar e, previsivelmente, me olhará com desdém, mas já conheço seu jeito mimado, lhe deito em meu colo e ficamos muito bem. Cada vez que eu partir se enroscará na minha bagunça, dormirá sobre minhas roupas e procurará meu cheiro pela casa, degustando a saudade de quem sabe que logo acaba. E brigaremos muitas vezes por pequenas tolices, a fim de afastar a monotonia da nossa paz, e nem precisamos nos guardar para os grandes conflitos, uma sintonia como a nossa não se desvia facilmente. Quando eu gritar se recolherá em si com cara de decepção e eu, ao tentar dormir sozinha, abraçada em meu orgulho, sentirei sua falta, e levantarei para lhe procurar e encontrarei ali, no corredor do meu quarto, virará o rosto num movimento de mágoa, mas ao perceber meus passos próximos voltará a me ver, e então sem nenhum orgulho nos abraçaremos, levo-lhe pra cama, e você me reclama um cafuné. Dessa maneira percebo o nosso amor infinito, e essa incomparável cumplicidade. Conto-lhe meus problemas, e você é capaz de me confortar apenas com seus olhinhos já cansados, mas que carregam ainda o mesmo brilho do primeiro encontro. Relaxa seu corpo cansado sobre o meu, e tranquilamente lambe minha mão, dessa maneira compactuamos nosso instinto de nos amar, e vejo em você a materialização dos meus gostos incomuns, e como é possível gostar tanto de um floco de algodão doce salpicado com azeitonas.

domingo, 20 de setembro de 2009

Invernáculo

[...]desastre de uma idéia
só o durante dura
aquilo que o dia adiante adia

estranhas formas assume a vida
quando eu como tudo que me convida
e coisa alguma me sacia

formas estranhas assume a fome
quando o dia é desordem
e meu sonho dorme

fome da china fome da índia
fome que ainda não tomou cor
essa fúria que quer seja lá o que flor

(O ex-estranho - Paulo Leminski)

sábado, 19 de setembro de 2009

Desabafo do estômago

Para quando meio hora demora mais que três dias a passar...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ginkgo biloba ensina...




.... Se quiser aproveitar sua beleza terá que suportar seus odores.




Nota: Ginkgo biloba possui um fruto carnoso que, quando em decomposição, possui um odor fétido. Isso quase levou a espécie a extinção, essa que é a única árvore sobrevivente do grupo ao qual pertence. Mas, seu fruto é gostoso, então lhe deram uma trela...

importância importada.

Hoje acordei com saudade do que nunca vivi,
calculando quantos tempos tem em dois dias,
quem sabe assim não gasto algum tempo e logo será apenas um.
Então o amanhã se tornará hoje, e esse hoje logo será ontem,
e da espera ficará a saudade e uma nova espera.
Mas, se sei que vem, sou feliz por esperar.

Hoje um amigo me disse:
"Ter saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio."

domingo, 13 de setembro de 2009

Tá dominado.

Post apenas para sentir como é ter DOMÍNIO.
(ao menos de alguma coisa)

A tristeza que sorri.

Em minha infelicidade discreta, minha melancolia é quem sorri, a fim de proteger minhas pequenas alegrias chorosas, selecionadas com minúcia, e enganar os olhos cardíacos e gordos que não suportariam a beleza dessa minha alegria contristada, de certo sentiriam palpitações ao se aproximarem desse contentamento receoso que, por não subestimar a efemeridade dos risos, e as efermidades recorrentes, são alegrias de vida longa, cheias de curativos e cicatrizes, mas das quais jamais desisti e as enterrei. Não quero colecionar alegrias, nem renová-las. Quero cultivar cada riso que tão intensamente escolhi, seria deveras triste me perder entre os risos fáceis dos homens felizes, que encontram beleza nas coisas simples, e motivos para sorrir em cada mínima coisa. Tenho orgulho da minha infelicidade crônica, e até gosto de enxergar um mundo tão feio, com pessoas tão feias e de energia tão pesada. E dessa maneira me ativam os brios encontrar alegrias em um mundo triste, e beleza em meio a tantas visões desagradáveis e uma pessoa como você, entre tantas desnecessárias.

sábado, 12 de setembro de 2009

O Amor Bate na Aorta

Cantiga de amor sem eira nem beira,
vira o mundo de cabeça para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

(Carlos Drummond de Andrade)

Ciclo Monstrual

Passo três dias no meio fio,
meio seca, mas grata pelo que passou.
Nos próximos sete compenso o desencanto,
semana de bar, de cerveja, de pensar bobeiras e falar todas elas.
E agora são quatro dias arrancando os pelos,
passando um blush e um batom,
momento que antecede os próximos cinco,
o clímax do mês, pergunte a uma mulher,
de preferência não sua mãe.
Chegam os três dias de desaceleração da alma,
que tranquila aproveita o que está para acabar
e que não é o dinheiro, esse foi deixado no auge do bar.
Então chegam os seis dias de crescente solidão,
e, conseqüentemente, durante três dias e meio sangro.




Nota de rodapé: Não quero abandonadar o trema :(

sábado, 22 de agosto de 2009

Budapeste - Chico Buarque

"Quarenta e quatro quilômetros diários, sentados lado a lado, eram extensão suficiente para nos conhecermos, e pelo canto do olho nos admirarmos, trocarmos confidências, criarmos implicâncias, às vezes discutirmos aos berros. Porém algum instinto sempre nos continha quando se chegava perto de um humilhar o outro, ou de se abrir demais o peito. Com um mínimo de pudor, mais um tanto de ódio preservado, nossa amizade se consolidou; à diferença do amor, que extravasa a toda hora, a amizade precisa ter seus diques."

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Das oportunidades desperdiçadas,

desejos sonâmbulos.

Escolha estúpida, noite cretina.

A manhã recorrente talvez seja sinal de solidariedade, perdão e teimosia. O sol insistente a queimar o que desprotejo e a iluminar meus sonhos para que, quiçá, em alguma manhã faça escolhas que eu não bote para dormir com o entardecer.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

evitando caimbra

A sobriedade da desilusão me traz orgulho da minha mente,
que se mostra, repentinamente, criativa.
e, num acesso, a ciencia da grande produção literária produzida em equipe:
a mente, a ilusão, a esperança, e a idealização.
versar sobre a rotina, e fazer dela poesia,
se convencendo que todo drama tem um fundo de comédia romântica.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Arquivo pessoal II

Não sei qual foi a causa e quais serão as consequências
a borboleta bate as asas e o vento vira violência.
Não sei a soma exata, só a ordem de grandeza
Não sermos literais às vezes faz nossa beleza
às vezes faz nossa cabeça um par de olhos, um pôr de sol
às vezes faz a diferença.
Tentei ficar na minha, tentei ficar contigo
o que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo.
Tentei ser teu futuro, tentei ser teu amigo,
o que há de mais seguro também corre perigo.
Não sei a quantas anda, é da nossa natureza
não saber o que fazer, às vezes faz nossa certeza
Às vezes faz nossa cabeça um par de olhos, um pôr de sol
às vezes faz a diferença...

(Sei não - EngHaw)

sábado, 25 de julho de 2009

Arquivo pessoal

Corpos em movimento
Universo em expansão
E o apartamento que era tão pequeno
Não acaba mais...

"Vamos dar um tempo"
Não sei quem deu a sugestão
Aquele sentimento que era passageiro
Não acaba mais.

Quero explodir as grades... e voar
Não tenho pra onde ir,
Mas não quero ficar
Novos horizontes
Se não for isso, o que será?
Quem constrói a ponte
Não conhece o lado de lá

Quero explodir as grades.. e voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Suspender a queda livre... libertar
O que não tem fim sempre acaba assim.

~

No melhor esconderijo, a maior escuridão,
já não servem de abrigo, já não dão proteção.
Holofotes iluminam a libido e o vírus
o poder, o pudor, os lábios e o batom.
Há um muro de concreto entre nossos lábios,
há um muro de Berlim dentro de mim,
é que tudo se divide, todos se separam
a diferença é o que temos em comum.

Não há nada de concreto entre nossos lábios,
só um muro de batom e frases sem fim.
É que tudo se divide, todos se separam
uma república no pampa, um ponto em circunstância.
holofotes nos meus olhos cegam mais que iluminam,
nem caiu a ficha e já caiu a ligação.

Que a chuva caia como uma luva, um dilúvio, um delírio,
que a chuva traga alívio imediato.
que a noite caia, de repente caia, tão demente quanto um raio,
que a noite traga alívio imediato.

E que os muros e as grades caiam.

(DVD Novos horizontes: Novos horizontes e Alívio imediato)

... agora é bola pra frente, é bola no chão.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

ver no in ver no in ver no in ver no ...

Inverno invasor, inverso,
invicto, sempre chega, inveterado,
sempre parte, envereda-se,
sempre a parte invejável do meu inventário,
do meu inverno, ermo, invendável,
quando meu eu inverna, involui-se
e se envaidece, por seu modo invulgar de enverdecer,
quando em seu invernal momento
se congela, e somente o que se tem de forte
não se enverga à invernada e renasce,
não apenas invernizado,
mas vertendo o verde e inversível verve interno
do meu não vivido, mas vívido coração.

terça-feira, 21 de julho de 2009

com seu sem.

se

con
for
mar

então
eu
frio
salobre.

domingo, 19 de julho de 2009

nano-felicidade

Corpos sustentados por fibras ópticas
com ramificações condicionadas e
incapazes de entrelaçar pessoas.
Felicidade metodológica,
prazeres alienados
produzidos em escala e
tranferidos por bluetooth.
Energia disperdissada com choques,
rompimentos,
pela incapacidade de se fundir
limitando-se do calor maior.
Eu querendo me expandir
e o século reduzindo:
a tecnologia, o tempo, a compaixão.
O mundo aquecendo,
e as pessoas congelando:
a comida, seus filhos, os sentimentos.
Relógio para contar o tempo que desperdiçam,
GPS para se encontrarem no mundo,
microscópios para ver o pequeno,
telescópios para ver o distante,
óculos escuros para ver no claro,
infravermelho para ver no escuro,
lentes para a falta de foco,
óculos, lupas, binóculos, telescópios...
Tanta tecnologia pra se ver um mundo sem visão,
ver o glaucoma atingindo crianças
e adultos a produzir muletas de compensado.

em módulo

Descobrir prazeres no que acho detestável
até acordar cedo, se for para lhe ver dormir,
ficar sem espaço, se for para lhe caber.
E que ironia,
escrevendo torto por linhas certas,
me afastando do que eu queria encontrar,
não subo, não caio, não ando em círculos:
a discrepancia entre felicidade e meu momento
é uma mera questão vetorial.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Grande Merda


Nós, humanos, não somos os únicos que brigamos por qualquer bosta.
Scarabaeidae - "Besouro Rola-Bosta"

sábado, 11 de julho de 2009

Mentindo verdades.

Como admiro Lewis Carroll!
capaz de mentir além das verdades alheias,
ou de recortar verdades,
e ligar seus extremos, recriando,
como num passe de mágica,
uma mentira nunca antes mentida,
uma realidade enterrada em mentes
tão evoluídas como a de uma criança.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

sensação avirgular II

Nem a análise combinatória me desistimula,
uma fila de números que me pareciam infinitos
a internet foi capaz de deixá-los finitamente pequenos.
Vinte e poucas letras tornaram-se poucas
frente às bilhões de pessoas que as combinam,
e sinto-me sagazmente feliz
quando tiro do teclado algo que o gúgou não conhece.

domingo, 28 de junho de 2009

O título

Quis lhe dar um título perfeito,
titular perfeição na nossa mistura e nos ver em solução...
mas você é intitulável.
Quis lhe dar o vento, a ventura, aventura,
e aventurada fui quando descobri aventura no vento criado por seus movimentos.
Quis lhe dar um presente caro, e encarei o desafio
de lhe mostrar minha cara limpa, cara suja, cara amassada, descarada.
Quis lhe dar o arco-íris, e ofereci meus braços,
que arqueados lhe cabe de maneira exata.
Ofereci a íris dos meus olhos,
uma dupla fiel que insiste em lhe ver até em minhas pálpebras.
Uni, então, ver e tocar com um traço de mudez que tudo diz.
Então me destrinchei em sete cores,
reflexos vermelhos da minha alma,
que vez ou outra desbota-se laranja
ao conflitar com minha pele amarela,
fora invadido pelo indesejado verde-esperança,
e minha racionalidade azul, deparada
com a vontade viole(n)ta de lhe sentir,
se tornou insignificantemente anil.
Quis lhe dar o céu, e ofereci o da minha boca,
palavras, sorrisos, silêncios, e seu sabor.
Quis me dar a você, mas não me encontrei,
perdi minha cabeça e minha mente levitou,
lá de cima nada compreendia ao me ver fragmentada:
meu coração saíra pela boca e pulsava desenfreado,
meus pés estavam no ar, meu estômago na garganta,
e do meu peito dilacerado saíam borboletas eufóricas.
Quis lhe dar coragem, mas só tinha medo.
Queria lhe dar um radinho de pilhas,
com a esperança que, mesmo sem energia,
tocasse aí a canção que tocou cá.
Criei nós que só tinham força na minha ilusão,
quiçá eu soubesse dar um nó de marinheiro nas sensações,
para amarrar à você algum encanto válido que me mantivesse,
no seu desejo, na sua rotina, na sua procura.
e entre tantos nós desfeitos,
restou apenas um cego nó na garganta.

sensação avirgular

Permito que roube meu sono em prol de uma inspiração válida, não de idéias brilhantes, mas de combinações simples de palavras capazes de exprimirem o sentimento humano mais expressivo que é o sofrimento exagerado e carinhosamente cultivado do ego rejeitado compreendido por qualquer um que saiba traduzir a poesia de um não. (respira).

domingo, 21 de junho de 2009

beja mim?


ah, as mínimas coisas...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Vidrada

Eu, areia, passei por tantas mãos sempre a escapar por entre os dedos.
Você ofertando todo seu calor me fez vidro,
por suas mãos fui modelada um pote de esperanças,
e preenchido com deliciosas recordações.
Então esfriou, me pediu para endurecer, e depois me quebrou:
nem areia, que voa livremente.
nem vidro firme e íntegro,
apenas recordações espalhadas e feridas por
. e s . t . . i l h . . . . . . . . d e . . . e s . p e r a . . .
. . . . . . . . . . . a ç . o s . . . . . . . . . . . . . . . . n ç . a s .

domingo, 14 de junho de 2009

A metáfora do momento!

Era festa junina à antiga.Acendeu-se um balão.Meu balão.Sua chama era tão bonita, gostosa, aconchegante, que o mantive em minhas mãos por um bom tempo. As pessoas diziam que o normal, nessa situação, seria deixá-lo ir; mas eu não conseguia.Era bom ter aquela chama por perto.Depois de muito olhar para ela, fui tomada por pensamentos indagadores: Que sentido fazia ficar segurando aquele balão?O seguraria até que sua chama se apagasse, mas correndo o risco de me queimar?Ou o deixaria ir como era seu aparente destino?E antes que pudesse me decidir, um vento soprou.Fiquei lá, parada, olhando o balão se afastar, contra a minha vontade irracional, com sua chama ainda visível.Não voltava mais, eu sabia. Se voltasse, com ele voltaria o dilema.E por que é, então, que no fundo, sempre no fundo, eu tinha a esperança de que o mesmo vento que o levou o trouxesse de volta?

Conversa de bot(a)equim.

- Dói perceber que duas letras podem findar até o infinito.
- Ou tornar possível o impossível.
- As mesmas duas letras, com resultados tão divergentes.
- Onde nos inserimos ou de que nos excluímos também são grandes escolhas.

- Suave ou seco?
- Seco e natural, sem gelo.
- O vinho ou você?
- O vinho.
- E qual a diferença?
- Seco pra suave é uma mera questão de adição de açúcar.
- O vinho ou você?
- ...
- Não gosta de bebidas doces?
- Hoje não.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O dia que Drummond resolveu me sacanear.

"Imagina uma ordem nova;
ainda que uma nova desordem, não será bela? [...]
A casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério;
o físico, viajante, afiador de facas;
o poeta, sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo; [...]
De tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.
Mas seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos."


"... E restam poucos encantamentos válidos.
Talvez um só, e grave: tua ausência."
(trechos de 'A Luis Mauricio, infante', livro 'Fazendeiro do ar', Carlos Drummond de Andrade)


Hoje o inverno amanheceu triste, o frio estava azul e a chuva desolada.

Sexta-feira 12.

12 de junho, dia criado para nos lembrar que ou estamos sozinhos ou alguns reais mais pobre.
Acordo, tomo algo quente, faz frio, e abro um livro, eu que já estava conformada com estar alguns reais mais rica...

A Bruxa

[...]
De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de homem
que entrasse nesse minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho pra oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e calma.
Porém a essa hora vazia
como descobrir homem?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mão, afetos, procuras.
Mas, se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de uma mulher.

(Carlos Drummond de Andrade, livro José.)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

(des)abafo

Aula chata, caderno aberto, escrevendo na última página. Até que alguém me pergunta: 'O que você tá escrevendo?'. E eu respondi: 'Só estou conversando.'
Às vezes, abrir um caderno é como abrir a mim.



Tudo que fazemos inconsciente, leva consigo um bucado da nossa consciência que desconhecemos. Me pergunto: porque na última página? O caderno talvez represente a rotina, já separei as disciplinas na seqüência que as aulas acontecem, rotina propriamente dita, e até seqüenciando a minha preferência, rotina do meu prazer íntimo. E talvez, aquilo que somente o caderno sabe escutar, não caiba na minha rotina, não naquela rotina social, somente na minha rotina introspectiva, e o meu eu que engulo, não é o mesmo que vomito. Então vejo uma organização inconsciente, escrevo do fim para o começo do caderno para que minhas rotinas não se misturem, elas não se dariam bem. Do início para o final, e do final para o início, em um momento se tangenciam, é hora de mudar de caderno. O velho eu guardo, vez ou outra me deparo com o que era pra ser findo. A rotina que (des)abafo, consome em parte a rotina propriamente dita, mas essa, só se dá conta, quando vê seu espaço tomado, e como a rotina busca o modo mais fácil de se repetir, simplesmente começa-se um caderno novo, folha em branco. Mas os antigos cadernos, fechados, podem ser abertos por um leve sopro. Faz parte da minha rotina ser desajeitada: ontem tropecei num armário e derrubei um caderno.


Ctrl+O

Encanto lógico.

Um homem perfeito seria racionalmente irracional.
Positivo, vez ou outra negativo, para sê inteiro.
Que seja complexo, uma parcela imaginária ornamenta a real.
Natural, infinito, mas não inconstante.
Acho que quero uma dízima periódica.

Muito gelo e dois dedos d'água.

- Muito gelo e dois dedos de água, não é o seu uísque. É você. Você é um iceberg dentro de uma piscina de plástico.
- Não entendi.
- Não? O seu coração tá gelado, com só dois dedos de emoção circulando dentro.
- Hum.
- Você devia derreter um pouco desse gelo, deixar a emoção fluir.
- Eu já entendi, mas acho melhor a gente abandonar essa metáfora.
- Esquece.
- Não, fica. Pode ficar. Eu tava gostando do assunto, só cansei da metáfora.
- Você quer mudar de metáfora ou falar sem metáfora?
- Falar sem metáfora.
- Ok. Eu acho que às vezes você pode deixar escapar emoções na vida porque seu coração tá frio, fechado para as emoções.
- Eu acho que você era melhor com metáforas.
- Ok. Digamos que você é a Antártida e eu o Amir Klink, por mais que o Amir Klink goste da Antártida e queira ficar mais tempo lá o clima gelado não permite, a frieza da Antártida repele o Amir, entendeu?
- A Antártida pede desculpas pro Amir Klink, mas foram as condições ambientais que deixaram ela assim.
- Mas, o Amir gosta da Antártida do jeito que ela é. Linda, branca, misteriosa, ela só precisa ser menos...
- Se você ficar dando bobeira na minha frente eu vou fazer o meu Top de cinco segundos com você.
- Fazer o quê?
- Eu tenho um top de cinco segundos para as coisas acontecerem. Entendeu?
- Entendi. Dói?
- Não, quer dizer, possivelmente sim, mas só depois, um dia...
- Eu topo.


Top de cinco segundos
...


... para as coisas acontecerem.

Um exemplo pro cinema nacional. Recomendo.
vídeo da cena: http://www.youtube.com/watch?v=KQDYuM_TLLU

terça-feira, 9 de junho de 2009

sen
ti
mento
minto
monto
munto
muito
só.


"Vivemos num mundo em que nos escondemos para fazer amor enquanto a violência é praticada em plena luz do dia.”
(John Lennon)

domingo, 7 de junho de 2009

Os últimos romances



Há quem procure um amor para vida toda, e não me excluo dessa posição, mas aprendi desde criança a não cometer abusos, querer a perfeição toda para mim e então devorá-la, seria uma mistura de gula, soberba, vaidade e egoísmo. Se quem procura acha, e só se procura o que está perdido, procurar, então, me parece impróprio, não quero alguém que esteja perdido nesse mundo, quero alguém encontrado, ninguém se perde por acaso, os perdidos não se atentam ao caminho e ao que passa. Notei então, que o ser passível de ser eterno me viria em parcelas, como se a minha alma gêmea tivesse caído nesse mundo, sem nenhuma idealização ou poesia, chegara até mim em um tombo desajeitado, e se partido em dezenas de pequenas almas, almalóides, pedaços da alma que me parece perfeita. E cada almalóide se fez um homem. Distribuído a esmo e à gosto pela minha história, e tive que cativar e conquistar cada uma dessas almas perfeitas, pois, há de existir merecimento, o bem vem para os bons e meu amor eterno se distribuiu em personagens e minha história de amor em capítulos: em um momento encontro confiança e respeito; em outro segurança; em outro intermináveis motivos para sorrir, dançar, pular, escrever; em outro um tesão inexplicável; outro a inteligência, esperteza, e perspicácia que me encanta; em outro uma mudez que me diz tudo que quero ouvir; outro boniteza sem beleza, outro beleza sem boniteza, outro me dá as aventuras que nem minha mente aventureira planejou; outro que me surpreende, que me renova, me desdobra; outro tão meu avesso que me faz o ser mais completo e com todas as faces da humanidade que aprecio; outro que sou toda instinto, naturalmente animal; outro que me faz sofrer, chorar, conhecer todo o azedume da dor, e como ninguém saber degustar cada segundo do doce em meu paladar; outro que me manda flores; outro que concorda; outro que discorda; outros... Uns podem me doar sua perfeição em uma noite, outro levar anos para isso, mas a intensidade independe do tempo, assim como o papel cumprido em uma história. Não haverá quem diga que não encontrei o amor eterno, pois, em nenhum momento terei me afastado dessas sensações, haverá todo o tempo adrenalina, feniletilamina, "paixãozina" percorrendo meu corpo por dentro, e por fora suor, rubor nas maçãs do meu rosto, e minhas pupilas dilatadas. Amarei incansavelmente cada um desses homens, e no fim da minha vida poderei dizer que encontrei um amor para a vida toda, pois, a vida toda soube amar o melhor que cada um dos homens que passaram tinham a me oferecer, e agradecerei ao acaso por ter me entregado minha'lma gêmea em parcelas, logo que, se me viesse de uma só vez, poderia ter me perdido em todas as suas faces, e deixado de enxergar cada uma das suas expressões, talvez não fosse capaz, na minha posição humana, de não pecar, de não permitir que a minha gula devorasse rapidamente a delícia que é a paixão. Pude então degustar calmamente cada pedaço do que me alimentava, e amando aos pouquinhos pude ser justa com todas as formas de amor, me dando, e o recebendo, pouco a pouco, com a tranquilidade de um idoso, e a intensidade de uma criança, e no fim, se é que ele chegará, feliz sou por não saber se o amor é findável, terei amado para sempre, não todo o amor que houver nessa vida, mas todo o amor que houver em mim.

:)

E eu que pensava ter tanto a dizer
vi tudo se resumir em um sorriso,
me dizendo como dois olhos dizem
que a imensidão de sensações se torna breve frente às criações humanas,
pois, somente a natureza sabe ser plena
e os homens, que têm todas as palavras em seu corpo,
criam formas de não se entenderem:
letras, símbolos, números, regras...
formas de dizerem o que vivem, ao invés de viverem o que dizem.
querem viver com métrica, e enriquecer até suas rimas.
mas, o viver é dadaísta, surreal: empírico.

Beca Moreno

"O sorriso das estrelas"