domingo, 4 de outubro de 2009

Ainda hoje

Dedicado à E.C.

Ahh... Ele era tão barbudo e alto. Exatamente como idealizei: barbudo e alto.
As coisas foram acontecendo de maneira tão inesperadas, tão casuais, tão ‘acaso’ais, tão convincente. Cheguei a achar que daria certo. Por acaso num show, por acaso na rua, por acaso sob meus lençóis, por acaso: o ocaso. 
À meia-luz me confessou segredinhos, e já no escuro eu via seu rosto e cada um dos seus movimentos desajeitados. Em seu peito Kingsize fingia dormir, fechava os olhos e assim passava horas tentando entrar no seu sonho. Sagazmente esfregava meu pescoço sobre sua camisa branca, expulsava meu cheiro dos meus poros, como uma tentativa de lhe fazer me lembrar mais tarde. 
Era engraçado ver seus dedinhos para fora do meu lençol, e ainda hoje me pergunto se partiu por não caber em minha cama. Bobo, se soubesse o conforto que há em meu peito. E eu jamais quis uma cama grande, sempre achei que o excesso de espaço é um convite indesejado. Gosto mesmo é do aperto. Já há distância demais entre as pessoas, dentro das pessoas, que só o que quero é espremer, exprimir meus devaneios, expelir meus desejos, e me espreguiçar as oito da manhã com certo prazer, tomar um café preto melhor que Kopi Luak, e um pão adormecido com manteiga, mas em minha boca tudo se mistura com o sabor do seu beijo e, de ímpeto, descubro uma receita mítica, talvez afrodisíaca. Então deita novamente sobre meu travesseiro, como quem pede mais cinco minutinhos, talvez um abraço, ou um café da manhã de verdade. Ainda hoje me pergunto se partiu por causa do pão adormecido. 
 Analiso por algum tempo ele deitado, e a maneira como seu cabelo acompanha as curvas que faz a fronha amarrotada, até que se levanta sem dar tempo de eu ter feito qualquer coisa além de o olhar, ajeita o cabelo afastando-o da nuca num movimento convidativo e se levanta. Ainda hoje me pergunto se partiu por achar que não o queria ali por mais cinco minutinhos.
Oferta-me a mão, olho para elas questionando se devo puxá-las sobre mim, ou usá-las de apoio para me erguer e, por mais que me fosse óbvio o que eu desejava, tive medo de o machucar com meu jeito atrapalhada, e apenas me levantei. Ele olhou no relógio, afastou minha franja que caia sobre meus olhos, acariciou meu rosto, e colou seu corpo no meu: meu quase-clímax, sentir em um novo dia aquele homem barbudo e alto colando no meu corpo, colando seu corpo, e alguns desejos dos quais ainda hoje tento me livrar. 
Deu-me um abraço apertado, aperto que mais tarde pararia em outros lugares e do qual jamais consegui me livrar. Por mais alguns minutos nos comunicamos assim, com toques e transferências e ele deixou minha casa. 
Andou pela rua como quem é observado, e de fato era, então aproveitou que eu guardava seu caminho para não se preocupar com os problemas mundanos, as placas e os carros que iam e vinham, pôs todos os seus esforços em balançar o cabelo, esboçar um sorriso, e dar sinal ao tróleibus de maneira exata. Cada gesto minuciosamente elaborado, como uma maneira de me fazer lembrá-lo mais tarde.
Talvez estivesse se vingando do cheio na camisa, bem vi que notara meu cheiro quando olhou para o lado e seu nariz se pôs sobre o ombro esquerdo. Não sei quanto da perfeição desse encontro foi poesia minha, mas ainda hoje me pergunto porque ele partiu. Talvez devesse telefonar. Mas ainda não passou das 10.